Povo Tukano – A Sabedoria dos "Filhos da Cobra de Pedra"
A jornada curatorial do Estúdio Joá pelo Alto Rio Negro nos leva hoje ao encontro do Povo Tukano, também conhecidos como Ye'pâ-masa (o Povo do Sangue), uma das etnias mais influentes da Amazônia Ocidental. Reconhecidos por seu papel fundamental na rica e complexa rede de trocas culturais da região, os Tukano são mestres na arte da cestaria e detentores de uma sofisticada cosmologia que se reflete na geometria precisa e vibrante de suas obras.
Fonte: Wikipédia
Onde Ficam Situados?
Os Tukano habitam a vasta e exuberante região do Alto Rio Negro, no noroeste do estado do Amazonas. Suas comunidades espalham-se principalmente ao longo do Rio Uaupés e seus afluentes, próximo à fronteira do Brasil com a Colômbia.
No lado brasileiro, grande parte da população reside no município de São Gabriel da Cachoeira, na Terra Indígena Alto Rio Negro. Viver nessa região de águas escuras, cachoeiras imponentes e floresta densa moldou profundamente a relação deste povo com a natureza, a matéria-prima e os mitos de criação.
Fonte: Instituto Socioambiental ISA
A Arte Tukano: A Cestaria e a Cosmologia Geométrica
A produção artística Tukano é um convite à contemplação da precisão e do simbolismo. Ela é marcada por trançados complexos, o uso vibrante de cores e grafismos que narram a história da criação do mundo e dos seres. No design de interiores do Estúdio Joá, as peças inspiradas nessa tradição trazem elegância, equilíbrio e uma geometria ancestral para o seu espaço.
A Cestaria em Arumã e a Geometria Sagrada (Tradição Masculina)
A cestaria em Arumã é uma das expressões mais refinadas da arte material Tukano.
-
O Material Principal: O Arumã (Ischnosiphon polyphyllus) é uma planta parecida com uma cana, que cresce em áreas de igapó e matas de igarapé.
-
O Trançado e o Grafismo: Os artesãos trançam as talas de arumã com uma precisão matemática, criando grafismos complexos chamados de uará. Esses desenhos geométricos representam elementos da cosmologia Tukano, como a Cobra-Canoa da criação, constelações e seres mitológicos. A geometria é tão precisa que parece vibrar, contando histórias sem usar palavras.
-
Os Objetos Utilizados: Os principais produtos são os urutu (cestos grandes com tampa), os básu (cestos abertos) e os balaios, que hoje habitam as casas contemporâneas como peças de arte em paredes ou organizadores sofisticados.
Os Bancos de Madeira (Bancos de Pajé)
Uma das expressões mais nobres da marcenaria indígena brasileira pertence aos Tukano: os bancos esculpidos em madeira monoxila (um único tronco de árvore).
-
A Confecção: Tradicionalmente esculpidos em madeiras resistentes como a sorva, esses bancos possuem um desenho curvo, ergonômico e minimalista que lembra bancos de design moderno.
-
O Uso: Originalmente, esses bancos não eram simples assentos. Eles eram de uso exclusivo dos chefes, pensadores e pajés (kumua) durante as grandes cerimônias nas malocas. Sentar-se no banco significava estar em uma posição de equilíbrio para meditar, governar e se conectar com o mundo espiritual.
Foto: Rosa Gauditano, 2002 / Fonte: Instituto Socioambiental
A Cerâmica e a Expressão Feminina
A cerâmica Tukano é um campo de expressão mais sutil, porém, igualmente rico em simbolismos.
-
A Matéria-Prima: As ceramistas coletam o barro nas margens dos rios e igapós. Para dar liga e resistência, misturam a argila com cinzas da casca de uma árvore local chamada caraipé.
-
A Modelagem: Cada peça é moldada inteiramente à mão, sem o uso de tornos, utilizando a técnica de roletes (cobrinhas de barro que vão sendo sobrepostas e alisadas).
-
Acabamento e Grafismo: As peças de argila recebem um banho de argila branca ou tabatinga sutil. Sobre essa base clara, as mulheres pintam os mesmos grafismos geométricos cosmológicos (uará) encontrados na cestaria. Elas utilizam um pigmento mineral marrom ou preto extraído da terra, fixado com resinas naturais da floresta, como o breu. O resultado são potes, cuias e vasos de tonalidades terrosas belíssimas, com superfícies foscas e traços pintados que carregam a identidade do povo.
Foto: Acervo Institutosocioambiental ISA
Curiosidades e Peculiaridades: A Viagem da Cobra-Canoa de Transformação
A maior riqueza cultural dos Tukano está na sua narrativa de origem do mundo, compartilhada com outras etnias do Rio Negro. Segundo o mito, a humanidade inteira foi trazida para a Terra dentro do ventre de uma gigantesca Cobra-Canoa (a canoa de transformação).Essa cobra cósmica navegou pelo Rio Amazonas e subiu o Rio Negro, parando em cada cachoeira e igarapé. Em cada uma dessas paradas, os diferentes povos indígenas foram descendo e recebendo seus territórios, seus saberes, suas sementes e seus objetos sagrados. Por isso, para os Tukano, os rios não são apenas caminhos de água, mas as veias da própria história de criação do seu povo.
O Estúdio Joá e a Geometria Sagrada Tukano
Incorporar uma peça de cestaria ou cerâmica Tukano na decoração é injetar a sabedoria dos "Filhos da Cobra de Pedra" dentro de casa. É uma arte que não passa despercebida; ela vibra, conta histórias de rituais profundos e celebra a resiliência da maior nação indígena do Alto Rio Negro. No Estúdio Joá, honramos a tradição Tukano para trazer essa energia ancestral e autêntica para o seu espaço.
Referências de Pesquisa:
-
Instituto Socioambiental (ISA). Povos Indígenas no Brasil: Tukano. Disponível em: pib.socioambiental.org
-
FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro). Projeto Arte Baniwa e Cadeia Produtiva da Pimenta Jiquitaia.
-
Barreto, Cristiana. O objeto indígena como obra de arte: cestaria e cerâmica no Alto Rio Negro.
