Povo Matis – Os Guardiões da Floresta e a Arte Funcional do Vale do Javari
A jornada do Estúdio Joá pelas riquezas culturais dos povos originários nos leva hoje a uma das regiões mais isoladas e preservadas de toda a Amazônia: o Vale do Javari. É lá que habita o Povo Matis, conhecido internacionalmente por sua profunda conexão com a vida na mata, por suas impressionantes ornamentações corporais e por uma produção utilitária e artística que une precisão, sobrevivência e respeito ao meio ambiente.
Foto: Isaac Amorim Filho, 1985 / Fonte: Instituto Socioambiental ISA
Onde Ficam Situados?
Os Matis habitam a Terra Indígena Vale do Javari, localizada no extremo oeste do estado do Amazonas, na fronteira do Brasil com o Peru (próximo ao município de Atalaia do Norte).
Essa região abriga a maior concentração de povos indígenas isolados ou de recente contato do mundo. O contato oficial dos Matis com a sociedade envolvente ocorreu apenas no final da década de 1970, o que permitiu que preservassem de forma muito pura sua língua (da família linguística Pano), seus rituais e suas técnicas de manejo da floresta.
Ilustração: Estúdio Joá / Criada via Inteligência Artificial
A Arte Matis: Cerâmica Utilitária, Adornos de Osso e Armas de Caça
Diferente de outros povos que produzem artesanato focado puramente na comercialização, a arte material dos Matis está intimamente ligada ao uso cotidiano, à caça e aos rituais de modificação corporal. No acervo do Estúdio Joá, as peças inspiradas ou originárias dessa etnia trazem uma estética crua, minimalista e cheia de força.
A Cerâmica Escura e os Potes de Barro
A cerâmica Matis possui uma identidade visual única e marcante pelas suas cores e texturas.
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A Matéria-Prima: As mulheres são as responsáveis por coletar a argila nas margens dos rios locais. Para dar liga, estabilidade e a cor escura característica, elas misturam ao barro cinzas vegetais e resinas da floresta.
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Técnica e Textura: Moldadas à mão através de roletes acumulados e alisados, as peças não recebem pinturas coloridas exuberantes. Em vez disso, focam em texturas rústicas, formas circulares perfeitas e pequenos relevos. Algumas cerâmicas trazem saliências nas laterais que lembram espinhos ou texturas de frutos da floresta.
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O Acabamento: Após a queima a céu aberto, as peças ganham tonalidades que variam do marrom profundo ao cinza escuro e preto, devido à queima e ao uso de substâncias selantes naturais como o breu.
Fonte: União dos Povos Indígenas do Vala do Javari UNIJAVA
Os Adornos Corporais e Artefatos em Osso e Concha
Os Matis são chamados por muitos de "os homens-onça" devido aos ornamentos faciais que usam para se parecerem com o felino e absorver sua força espiritual.
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Os Adornos: Eles produzem agulhas de osso de animais (como aves ou porco-do-mato) e pequenas peças esculpidas em conchas de rio (tshak), utilizadas como piercings no nariz e nas orelhas.
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Zarabatanas e Flechas: Os homens Matis são artesãos impecáveis na fabricação de armas de caça, especialmente a zarabatana (wisha), que pode passar de 3 metros de comprimento. Feita com madeira de palmeira perfeitamente raspada, polida e unida com fios de algodão nativo e resinas, ela é uma obra-prima de engenharia e marcenaria tradicional.
Fonte: União dos Povos Indígenas do Vala do Javari UNIJAVA
Curiosidades e Peculiaridades: O Ritual do Veneno do Sapo (Kambô)
Uma das maiores peculiaridades culturais dos Matis, que atrai o interesse de estudiosos do mundo todo, é a relação deles com a medicina da floresta e os rituais de fortalecimento do caçador. Os Matis foram um dos primeiros povos documentados a utilizar o Kambô (a secreção da rã Phyllomedusa bicolor).
Para afastar a "panema" (uma espécie de má sorte ou preguiça na caça) e tornar o corpo forte, resistente e invisível aos animais da floresta, os homens aplicam pequenas queimaduras na pele e introduzem o veneno verde coletado da rã. O efeito causa uma forte reação física de purificação, mas, segundo os Matis, resulta em uma acuidade visual e auditiva impressionantes para adentrar a mata densa.
O Estúdio Joá e o Apoio à Arte do Vale do Javari
A arte do povo Matis nos lembra que o verdadeiro luxo contemporâneo está no que é feito à mão com verdade, utilidade e conexão espiritual. Ao trazer elementos da estética Matis para a sua casa, você celebra a resistência cultural de um povo que mantém o coração da Amazônia batendo de forma sustentável e autêntica.
Referências de Pesquisa:
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Instituto Socioambiental (ISA). Povos Indígenas no Brasil: Matis. Disponível em: pib.socioambiental.org
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Erikson, Philippe. O valor dos objetos: a cultura material Matis em perspectiva comparada. Revista de Antropologia.
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FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Relatórios de Proteção Etnoambiental e Delimitação da TI Vale do Javari.
