Povo Baniwa – A Arte Entrelaçada com a História da Amazônia

A riqueza cultural do Brasil se manifesta de forma esplêndida nos detalhes. Quando olhamos para uma peça artesanal, não estamos vendo apenas um objeto de decoração, mas séculos de saberes passados de geração em geração. Hoje, o Estúdio Joá convida você a viajar até o extremo norte do país para conhecer o Povo Baniwa e sua magnífica arte ancestral.

Foto: Divulgação / Fonte: Portal Amazonia

Onde Ficam Situados?

Os Baniwa pertencem à família linguística Aruak e habitam a complexa e exuberante bacia do Rio Içana e seus afluentes, além do Alto Rio Negro. Seu território estende-se pela tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.

No lado brasileiro, suas comunidades estão localizadas no estado do Amazonas, mais especificamente no município de São Gabriel da Cachoeira, na Terra Indígena Alto Rio Negro. Viver nessa região de floresta densa e rios de águas escuras moldou profundamente a relação deste povo com a natureza e com a matéria-prima de suas obras.

Fonte: Instituto Socioambiental ISA

A Arte Baniwa: A Cestaria de Arumã e a Cerâmica das Mulheres

A expressão material dos Baniwa divide-se em um equilíbrio harmonioso de saberes: enquanto os homens dominam a arte do trançado, as mulheres são as grandes mestras da modelagem do barro.

A Cestaria de Arumã (Tradição Masculina)

Reconhecida mundialmente por seu design sofisticado, a cestaria Baniwa transforma uma planta nativa em utilitários de extrema precisão geométrica.

  • O Material Principal: O Arumã (Ischnosiphon polyphyllus) é uma planta parecida com uma cana, que cresce em áreas de igapó e matas de igarapé.

  • O Processo e o Tingimento: Após a colheita, as hastes são divididas em finas talas. Para criar os padrões bicolores, parte das talas é mantida em sua cor clara natural, enquanto a outra parte é enterrada na lama preta do igapó ou fervida com folhas tintoriais, adquirindo uma tonalidade preta ou marrom-escura profunda.

  • Os Grafismos (Uará): O entrelaçamento das talas claras e escuras dá vida a grafismos complexos que representam elementos da cosmologia Baniwa, como constelações, o rastro da onça, o corpo da cobra-grande e seres mitológicos. Os principais objetos são os urutu (cestos grandes com tampa), os básu (cestos abertos) e os balaios.

Foto: Beto Ricardo, 2000 / Fonte: Instituto Socioambiental ISA

A Cerâmica Tradicional (Tradição Feminina)

Tão ancestral e relevante quanto o trançado, a cerâmica produzida pelas mulheres Baniwa carrega uma delicadeza única e traços marcantes.

  • A Matéria-Prima: As ceramistas coletam o barro argiloso nas margens dos rios e, para dar liga e resistência térmica às peças, misturam a argila com cinzas da casca de uma árvore local chamada caraipé.

  • A Modelagem: Cada peça é moldada inteiramente à mão, sem o uso de tornos, utilizando a técnica de roletes (camadas de barro sobrepostas e alisadas com pedaços de cabaça ou pedras lisas de rio).

  • O Acabamento e os Grafismos: Após a secagem, as peças recebem um banho de argila branca (tabatinga). Sobre essa base clara, as mulheres pintam manualmente os mesmos grafismos geométricos e cosmológicos (uará) usados na cestaria. Elas utilizam um pigmento mineral marrom ou preto extraído da terra, fixado com resinas naturais como o breu, antes da queima a céu aberto. O resultado são potes, cuias e vasos de tonalidades terrosas belíssima.

Foto: Acervo Museu do Índio / Fonte: FUNAI (gov.br)

Curiosidades e Peculiaridades: A Riqueza da Pimenta

Uma das maiores curiosidades sobre o povo Baniwa é que sua maestria não se limita aos objetos de arte. Eles são mundialmente famosos pela produção da Pimenta Baniwa.

As mulheres são as guardiãs de uma biodiversidade impressionante de pimentas nativas (gênero Capsicum). Cultivadas em roças tradicionais sem nenhum aditivo químico, elas são colhidas, desidratadas e moídas com sal pelas produtoras, resultando na famosa pimenta Jiquitaia — que carrega um aroma defumado único.

Para os Baniwa, a pimenta vai muito além da culinária: ela tem propriedades de proteção espiritual, purificação e medicina tradicional, sendo indispensável em rituais de passagem.

O Estúdio Joá e o Apoio à Arte Baniwa

Ao escolher uma peça de cestaria ou cerâmica Baniwa para o seu espaço, você está apoiando diretamente a manutenção dessas comunidades no Alto Rio Negro, fomentando a economia sustentável da floresta e garantindo que essas tradições continuem vivas pelas próximas gerações. Uma casa com alma é aquela que se conecta com histórias reais de preservação.

Referências de Pesquisa:

  1. Instituto Socioambiental (ISA). Povos Indígenas no Brasil: Baniwa. Disponível em: pib.socioambiental.org

  2. FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro). Projeto Arte Baniwa e Cadeia Produtiva da Pimenta Jiquitaia.

  3. Velthem, Lucia Hussak van. O objeto indígena como obra de arte: cestaria e cerâmica no Alto Rio Negro.